Sobre “Game Change” e as eleições americanas
Fui ver este telefilme toda animada, achando que eu iria confirmar todas as minhas suspeitas sobre como o partido republicano pode ser evil, como a Sarah Palin é uma desmiolada, etc. etc.
Já tinha visto metade da FOXNews esbravejar contra o filme, inclusive a própria Palin, todos acusando a HBO e Hollywood inteira de ser pró-Obama (!) quando o trailer saiu.
Uma pena ter rolado um “boicote” por parte dos conservadores. Eles se surpreenderiam com o resultado. Game Change é um filme honestíssimo, sem pender para lado nenhum. Eu arriscaria até a dizer que ele é bastante doce com a sua protagonista, Sarah Palin (a ideia de que este é um filme pró-Obama não poderia ser mais equivocada. Ora, é pró-Obama só porque mostra que ele ganhou? Well, dãaa! Ele ganhou, não ganhou?? Não dá pra mudar isso, néam? Tsc!).
Alucinações à parte, fiquei bastante tocada pelo retrato que fizeram da pobre coitada sem-noção do Alasca. Sim, fiquei com pena daquela maluca!
O que o telefilme mostra sem qualquer pudor é a jogada de marketing que foi a escolha dela para vice de John McCain. Vemos os coordenadores de campanha ‘googlando’ vários nomes até se depararem com o da então governadora. Aí, assistindo a um vídeo no YouTube, todos se encantam. Atentem: o que chamou a atenção de todos não foi o currículo, ou o que ela andou fazendo pelo Alasca – o fascínio foi pelo seu carisma. E carisma ela tem demais!
Sarah Palin é fascinante. Eu estava de férias na época do discurso que ela fez quando aceitou ser candidata a vice-presidente e assisti ao vivo. Fiquei encantada na hora! Aquela mulher surgiu do nada e cada palavra que saía de sua boca me empolgava! Assim como empolgava todo mundo nos bastidores da campanha, até que…
Game Change mostra muito bem como o castelo de cartas caiu: na hora das entrevistas. Ahh, as entrevistas… Era um mico maior que o outro! Um desavisado pode até achar que o filme “humilha” a ex-governadora ao mostrar coisas como ela dizendo que Saddam Hussein foi o responsável pelo 11 de Setembro, memorizando o que falar sem precisar entender nada, etc. Mas c’mon: alguém se espanta de um político novato do fim do mundo ser assim? Mostrar aquela preparação toda não a “humilha”; apenas retrata o nível altamente profissional das campanhas americanas. É tudo showbusiness – ou, como diz um dos personagens, “a bad reality show”.
Mas há também um outro lado, mais humano: Sarah Palin praticamente surtando com a pressão que vinha de todos os lados (ela vivia com anotações pra lá e pra cá, não conseguia aprender nada e não respondia aos assessores). Aquilo não me pareceu de todo inverossímil: alguém como ela poderia facilmente “shut down” em tal circunstância. Deu pena dela. Sério. Não achei em nenhum momento que mostrar tais fraquezas tivesse sido algo “anti-Palin”. Muito pelo contrário.
Vemos sua obsessão por querer saber sua popularidade no Alasca; sua preocupação com a imprensa de lá, ao mesmo tempo em que não levava a sério entrevistas para a mídia nacional; seu sofrimento com os boatos acerca de seu filho mais novo; os miniescândalos semanais; o filho que foi pra guerra; e por aí vai. Acabou passando mesmo a sensação de que ela era uma simples soccer mom empurrada para dentro de um furacão. Pobre coitada.
Game Change não é tendencioso. Contextualiza direitinho como ela conseguiu dar a volta por cima e sair de uma eleição fracassada para se tornar uma liderança de peso no partido republicano. Se o telefilme pecou em alguma coisa, foi na escolha de Julianne Moore para representá-la. Por mais que seja boa atriz, não chega nem perto do (impressionante) magnetismo da verdadeira Palin.
No mais, a cena que me valeu o filme não teve nem muito a ver com a protagonista. Na noite da eleição, já com todos percebendo a derrota, uma assessora se aproxima do chefe da campanha (interpretado por Woody Harrelson), chorando, e diz: “preciso te contar uma coisa… eu não votei”.
Tive um leve insight nessa hora: por que será que a eleição é realmente decidida por dois ou três swing states? Ou, como aquele filme com o Kevin Costner (Swing Vote, que ganhou o bizarro título “Promessas de um Cara de Pau” no Brasil) extrapolou, será tudo sempre tão empatado que às vezes temos a impressão de que tudo dependeria de uma única pessoa?
Estou convencida de que a eleição nos EUA é principalmente decidida por quem não vota. Fiquei pensando aqui… quanta gente simplesmente deixou de votar porque os candidatos republicanos não chegavam aos pés do Obama? Claro que tem toda a questão inversa, de quem vai votar ser fundamental: a esperança que o Obama trazia em 2008 fez com que jovens se empolgassem para ir às urnas, e provavelmente isso ajudou. Ok. Mas fiquei com a impressão de que só isso não é suficiente. Foi preciso, sim, um empurrãozinho-vergonha-alheia dos conservadores, que preferiram ficar em casa dessa vez (lembrem-se de que John McCain não é muito querido dentro do próprio partido republicano… então daí pra neguinho não ir votar é um pulo).
Então, se há algo a tirar disso é o seguinte: fiquemos atentos a quem não for votar em 2012. Mitt Romney corre um sério risco de ser mais uma vítima, pois será preciso convencer os ultrarreligiosos a saírem de casa pra votar num… num… mórmon. E o Sr. Obama também tem que ficar esperto, pois tem uma galera megaliberal revoltada com ele. A ver.
Marina Oliveira quicou MUITO com a parte do filme em que se cogitou uma corrida suprapartidária, com o Joe Lieberman de vice!! E se, hein?? E se??? Uaau!
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