Dieta: prós e contras

Estou desde setembro de 2016 numa dieta com restrição de gordura e açúcar. Já perdi quase 20 quilos e praticamente sou outra pessoa. Isso é bom? Isso é ruim? Tire suas próprias conclusões.

 

Pró: não existe mais isso de dor de cabeça, azia, náusea, enjoo, diarreia, etc. A vida sem dúvida melhorou.

Contra: não existe mais queijo amarelo na minha geladeira. A vida sem dúvida piorou.

 

Pró: agora eu tenho uma calça branca – justa! – da Zara. Tá tudo no lugar! ;)

Contra: já gastei uns 400 reais em saias, blusas e calças novas (+70 pilas pra apertar 2 saias!) porque nada mais cabia em mim, mas parei de comprar quando a endócrino avisou que é provável que eu emagreça ainda mais, mesmo estando já na manutenção. Tsc!

 

Pró: glicose, insulina e colesterol nos eixos.

Contra: ganhei uma ansiedade que eu não tinha. Me peso todo dia. Conto calorias para escolher a sobremesa. Fico pensando loucamente em comida o dia inteiro porque tenho que controlar coisas como ovo, carne etc.

 

Pró: raramente alguém agora encosta o bundão em mim em ônibus ou metrô.

Contra: passo MUITO TEMPO olhando menus em restaurante e rótulos em supermercado. É um saco. Sabiam que quase toda salada em restaurante vem com bacon e/ou parmesão? E que requeijão light tem uma quantidade obscena de gordura saturada?? Tsc!

 

Pró: infelizmente é injusto, eu sei, mas verdade: é muito mais fácil achar roupa! Em qualquer loja, qualquer coisa cabe em mim!

Contra: eu não me acostumei ainda comigo magra. Meu rosto está estranho. As pernas estão um horror de finas! Os ossos do peitoral aparecem quando me estico no espelho, e isso me perturba muito.

 

CONCLUSÃO:

As pessoas tentam te convencer de que a vida é melhor assim (“você ganhou saúde!!!!”), mas sei lá. Às vezes eu fico revoltadona. Sentir prazer em jantar salada é uma arte que eu ainda não dominei. Tenho altos e baixos no humor – depende do restaurante e da salada, hehehe.

Então eu vou falar aqui para os dois grupos de pessoas:

  • Se você for pró-dieta, dizem que vale a pena… Mas acho que você tem que ser uma pessoa beeem desapegada de comida pra ficar tranquilo(a) com as privações de uma dieta. Eu não sou tranquila MESMO nesse aspecto, hehehehe.
  • Se você for pró-gordices, VALE MUITO A PENA!!!! Comer todas as delícias do mundo é um privilégio, tenho inveja mesmo. Apenas tenha em mente que sua qualidade de vida tende a diminuir a médio prazo.

Como o Glenn Beck me convenceu a votar para prefeito

0. Contextualizando: o Glenn Beck está em “crise” desde que o Ted Cruz deu pra trás e apoiou o Trump. Cruz foi o primeiro político que o Glenn Beck de fato apoiou e para quem fez campanha ESCANCARADA, num movimento final de desespero ao ver que o Trump ia ganhando terreno. Assim como eu (e muita gente…), ele se recusa a aceitar Trump como candidato. Mas não rolou.

1. O Trump ter chegado aonde chegou é algo que deixou muita gente PERPLEXA. Eu passei meses achando que era zoação, tinha certeza que o Jeb Bush ia ser o candidato (mas meu coração batia pelo Chris Christie!). Enfim. Fica aquela: SOCORRO. E AGORA? VOTAR EM QUEM?

2. Todo mundo sabe que o Trump não é conservador. Alguns republicanos estão respirando fundo e o apoiando na vã esperança de que seja menos pior que um democrata. Porém, isso não convence BOA PARTE da base conservadora. Votar na Hillary, pra esse pessoal, nem tampando o nariz. Logo, não há opção a não ser ficar em casa e assistir na TV ao desastre.

3. Opa, espera, tem sim, se tudo o mais der errado: Convention of States (http://www.conventionofstates.com/). Vamos tentar. Vamos tentar até o fim! Todas as opções, não vamos ceder. Não vamos aceitar um fanfarrão como presidente, com ideias malucas e outras bem similares aos ideais democratas, e outra senhora que mente até quando respira.

4. O Glenn Beck não está sendo teimoso nem alucinado: ele está sendo 100% coerente com seus valores. Mudar de opinião sempre é válido se você estiver evoluindo, se não for oportunismo. Dar pra trás como o Ted Cruz fez foi lamentável. Foi coisa de raposa amedrontada com medo de ter arruinado a carreira no discurso da convenção (“votem com a sua consciência”, disse ele).

Eu fiquei genuinamente tocada com essa atitude. Com essa coisa de “não, péra, não é possível tanto candidato ruim. Se alguém ganhar, there must be a way out.”

Aqui no Rio está rolando algo vagamente semelhante, com candidatos inacreditavelmente ruins e partidos que foram incapazes de se coligar para evitar o suposto “mal maior”. ‘Cês estão vendo agora o resultado disso: voto pulverizado, para tudo que é canto, e com grandes chances de termos o pior segundo turno de todos os tempos.

Eu estava pensando ontem em exercer o voto útil para amenizar o suplício, mas acho que vou chutar o balde: com base nos meus valores, lá vou eu pulverizar meu voto. Vou fazer o que está ao meu alcance, não vou desistir.

Já nos EUA, tô torcendo para o Glenn Beck e demais inconformados conseguirem tirar essa da cartola.

Mais aqui: http://www.glennbeck.com/2016/09/28/nevertrump-never-hillary-nevermind-a-convention-of-states-is-the-answer/

Quando a verdade é tão improvável que não “cola” (ou: assistam já a “Making a Murderer”!)

Em poucos dias de férias, assisti do início ao fim à série documental “Making a Murderer”, do Netflix, sobre a história incrível do infortúnio que está sendo a vida de Steven Avery. Terminei completamente EMBASBACADA.

Antes de mais nada, não tem essa de “isentão” neste texto. A história a que assisti não me permite isso. O documentário não precisou de muito para me convencer de que Steven Avery é inocente.

As pessoas em geral gostam de se mostrar superiores, de exibir sua “isenção” perante tudo que é mostrado ali: “ah, o documentário toma o lado dele, então é óbvio que todo mundo vai achar que ele é inocente, então preciso desconfiar das documentaristas e portanto tenho dúvidas”. Gente assim tende a bater o pé simplesmente por uma questão filosófica (“não vou me influenciar por um filmete, vou formar minha própria opinião CUSTE O QUE CUSTAR”).

Bom, definitivamente não vou fazer isso aqui, porque fui 100% fisgada.

Ora, desde o momento em que você aperta o play no episódio 1, o que mais você esperaria? É ÓBVIO que o objetivo era narrar a história dele! Mas o documentário se sustentaria se fosse um mero panfletinho “salve Steven”? Claro que não.

Esta é uma série fenomenal porque a história é fenomenal. A série mostra todo o longo (e surreal) processo pelo qual Steven Avery vem passando desde pelo menos 1985. O queixo vai caindo a cada episódio, pois a trama vai ficando mais e mais bizarra. Em resumo, temos o homem mais azarado do universo sendo punido (pela segunda vez!) por algo que ele não fez.

E a escolha de usar cenas bucólicas, movimentos lentos, familiares abatidos, é totalmente genial: você sente na pele como aquilo tudo está demorando, e demorando, e se arrastando, e se enveredando para uma situação cada vez mais complicada. Dez horas foram necessárias para mostrar tudo – e ainda não acabou!

Os dez episódios não nos trazem conforto algum. Nada dá certo para este homem e sua família. Você não tem redenção alguma, só um calendário onde meses e meses se passam sem que qualquer fio de esperança surja.

Se estivéssemos assistindo a um belo seriado de tribunal, veríamos advogados espumando. Teríamos um juiz engolindo seco ou se compadecendo. Teríamos policiais mordendo os lábios e suando. Teríamos uma família em prantos em quase todas as cenas. E teríamos toda uma historinha de fundo que nos mostrasse a “verdadeira verdade”, para respirarmos fundo no sofá, de alívio. “Ahhh!”

Mas não. Nessa história tão real quanto implausível, temos advogados quase passivos (porém excelentes e tentando de tudo), um juiz que não está nem aí para a defesa e policiais indiferentes e cínicos, fingindo ser a coisa mais normal do mundo eles entrarem e saírem do “local do crime” sendo que foram teoricamente proibidos de investigar o Steven Avery, devido ao conflito de interesses (assistam!).

Por fim, temos uma família completamente desestruturada e prostrada diante do sistema judiciário. Ninguém dá escândalo, ninguém tem um surto daqueles que a gente vê em filme, ninguém se exaspera. Você os vê frustrados, decerto, mas todos “comportados”, cabeças baixas, resignados.

E isso foi um aspecto que me fascinou e sobre o qual eu entraria em longa digressão se fosse estudante de cinema: a câmera na cara deles o tempo inteiro os inibe, os restringe. São pessoas humildes, simples, de classe baixa, white trash. Querem passar boa impressão, e não passar vergonha. Eles se veem na TV, assistem ao “drama” midiático como todos os outros moradores de Manitowoc County. Nós somos informados sobre o baixo QI de Steven Avery e Brendan Dassey, seu sobrinho. Mas todos os outros familiares me parecem igualmente desprovidos de uma inteligência razoável. Eles sabem que tem algo errado acontecendo. Eles acreditam na inocência de Steven e Brendan, mas estão perdidos. O que fazer? Como proceder?

Seria fácil demais sair falando que a mensagem fundamental da série é: “pobre só se ferra”. Ou: “a injustiça do sistema para com os desvalidos”. Muito pelo contrário: Steven Avery contratou os melhores advogados do estado para defendê-lo. E ainda assim não ganhou. Ele teve uma defesa primorosa, do início ao fim.

O documentário não quer passar nenhuma “mensagem” mágica ou salvadora no final, não tem liçãozinha de moral. A história ainda não acabou, o calvário segue.

Se eu aprendi alguma coisa ao final desses dez episódios espetaculares foi o seguinte: não há esperança para quem não é muito inteligente. A burrice de Steven e de Brendan causou tudo isso (assistam para entender!), e não houve meio de salvá-los das garras do sistema. Para mim essa foi a maior injustiça: uma série de eventos infelizes ocorre com Steven, tomando proporções gigantescas, e nada pôde ser feito a respeito. Às vezes, a verdade não colabora – e se você não tem o mínimo de inteligência para tentar se safar, já era.

O sistema judiciário americano não é louco, ele funciona como um reloginho. Um reloginho, talvez, certinho demais. E impenetrável demais para situações que sejam um pouco mais fora da curva.

Imagine um estado pacato como Wisconsin. O julgamento de um assassinato deve ser algo totalmente exótico – e, portanto, deve ser imensa a pressão por um veredito de “culpado” a qualquer custo. Tem que ser MUITO NINJA para se safar de uma acusação como essa, pois, mesmo estando do lado da verdade, mesmo você sendo 100% inocente, a sua história precisa “parecer” lógica aos olhos da lei. Agora imagine se a sua única defesa for “os policiais tramaram contra mim”. Em um pequeno condado de menos de 80 mil pessoas. Imagine ser persona non grata num local assim e ser acusado de crimes. Duas vezes. Imagine uma mídia local feroz e histérica com cada detalhezinho da história.

Por fim, imagine que você resolve processar o departamento de polícia que te prendeu erroneamente por 18 anos. Imagine que semanas depois apareçam “evidências” de que você matou alguém. Imagine…

Muito improvável, né? Muito impossível, talvez? Quem sairia matando assim, logo depois de ficar preso erroneamente por 18 anos?

Não importa de que lado você esteja, ou no quanto você acredita, tudo o que acontece nessa história é improvável: ele sair matando, os policiais perseguirem ele a ponto de plantar evidência para incriminá-lo, o sobrinho inventar histórias loucas, a polícia de Manitowoc não ser punida pelo erro de 1985, essa mesma polícia investigá-lo enquanto está sendo processada, o procurador do condado vizinho conspirar com o advogado do sobrinho…

Talvez isso tenha sido o que mais me assustou: a tão falada “reasonable doubt” não existiu nessa história, que é “mirabolante demais”, “improvável demais”, “bizarra demais” (assistam!).

No episódio 5, um dos advogados de Steven Avery desabafa, consternado: “a chase for the truth in a criminal trial can be vain”.

E eu penso aqui: especialmente quando essa verdade é altamente improvável.

A extraordinária história de uma catarse coletiva

Nota: este é um longo texto baseado em minhas observações antropológicas ao longo dos últimos meses no Alvorada. Tais observações culminaram, hoje cedo, em um momento extraordinário que resolvi registrar aqui.

Uma das poucas regras que são respeitadas pelo brasileiro é a FILA. Trata-se de uma instituição quase sagrada. A fila passa uma sensação de justiça para as pessoas, é um mecanismo lógico na cabeça de todo mundo: quem chegou primeiro será atendido primeiro. Não tem essa de “carteirada”, “VIP”, etc. Fila é fila e deve ser respeitada. Para mim, aliás, furar fila devia ser crime inafiançável.

No Alvorada a coisa é sagrada. Uma multidão insana desembarca ali do BRT todo santo dia e se encaminha para seus pontos de ônibus. Em cada ponto, uma fila é civilizadamente montada e respeitada em silêncio. Frequento a área há 4 anos, bem cedinho, e nunca vi confusão ou empurra-empurra (não estou falando do BRT às 5 da tarde, claro; estou falando dos ônibus ali fora). Contudo, para cada regra existe uma exceção… e eu tenho uma história muito boa para contar sobre a fila do meu ônibus.

Vai ser longo, pois preciso contextualizar… :P

De um ano para cá, uma velhinha bem pequenina, mirradinha, “fofinha” que só ela, resolveu não mais pegar a fila ou sequer usar cartão de gratuidade. Então, todo santo dia ela chega e para ao lado do primeiro da fila, sorri, dá bom-dia, essas coisas. Bem fofinha e pequenina, mirradinha, inofensiva. E todo dia ela também pede ao motorista, amistosamente, que abra a porta de trás. Aí, mirradinha que só ela, sempre sobe por trás na frente de todo mundo. Todo dia isso. E a fila, às vezes, pode chegar a 40, 50 pessoas, que assistem à cena quietos. Todo dia.

Eu, como antropóloga amadora, fico fascinada (e pasma). Observo esse comportamento há pelo menos 10-12 meses. E ninguém sequer olha para o companheiro mais próximo da fila, ou dá uma risadinha, ou dá uma reclamada discreta. Nunca. Ninguém. Só eu que reviro meus olhos achando aquilo o fim. Já tentei, mas ninguém ousa falar nada.

“Poxa, Marina, ela é uma velhinha, mirradinha, coitada, e ela tem direito”.

Sim, ela tem. Mas ela também tem direito a um cartão de gratuidade. Que ela simplesmente não usa ou porque perdeu, ou porque antes ela tinha um cartão pago pela patroa e agora não mais, pois fez 65 anos em 2015 (razão mais provável, pois antes disso ela entrava na fila). Ou porque ela é ideologicamente contra cadastro (?). Que seja. Para mim, está clara a razão dessa presepada todo santo dia: se ela tivesse o cartão, a mamata acabaria. Ela passaria a ter que entrar pela frente como todos os outros mortais.

Tenho dois problemas “filosóficos” com essa atitude:

  1. O mau precedente. Já tem um casal de idosos que viu isso algumas vezes e passou a fazer a mesma coisa. Então o que antes era um “deixa pra lá, é só UMA velhinha furando a fila, não vai fazer muita diferença…”, agora já virou TRÊS PESSOAS. Em breve toda a situação pode se tornar perigosamente transgressora. Se todo mundo achar que pode entrar por trás e depois passar o cartão, temos o caos instalado numa sociedade que já é frágil e que não respeita muito as regras.
  2. O caráter da velhinha. Ela está se aproveitando da sua condição de senhorinha mirradinha para ganhar vantagem sobre os outros. Ela sabe que ninguém realmente vai arrumar briga com alguém assim no Alvorada. Ela inspira pena em todos (eu inclusive! Pobrecita!) e manipula as coisas a seu favor para se dar bem. E eu acho isso moralmente errado – ainda mais considerando que, mesmo se ela fosse a última da fila, seria perfeitamente possível ela conseguir sentar na cadeirinha amarelinha dela. Na imensa maioria das vezes o ônibus não lota tão loucamente assim a ponto de ~PRECISAR MUITO MUITO MUITO UMA IDOSA ENTRAR PRIMEIRO~. Sem contar que esses assentos são sempre os últimos a serem preenchidos. Então, portanto, nessa atitude diária dela vejo aflorar um caráter não muito bom, ainda mais com o que vou contar adiante.

Ardilosa que só ela…

Esta senhora é terrível. Eu já fui primeira-da-fila algumas vezes e já bati papinhos com ela ali, furando do meu lado – algumas conversas amigáveis, outras estranhas, especialmente quando o ônibus está atrasado e ela começa a ficar impaciente. Confesso que no início me assustei com a quantidade de xingamentos.

Ela aparenta ser amistosa e fofinha, mas se o motorista pede para ela mostrar a identidade para a câmera…….. socorro! Ela sai dali estrebuchando (alto, para o motorista ouvir) a caminho da porta de trás e fica reclamando e xingando sem parar, bem alto, mesmo já estando sentada.

Toda pequenina e fofinha, mas capaz de soltar uma enormidade de palavrões que você não acreditaria ser possível sair de uma boca tão mirradinha. É comum eu sentar próximo a ela e ouvir as maiores barbaridades sobre o motorista, ou ela dando um fora na pessoa ao seu lado, etc. Enfim, tenho muitos causos sobre ela.

Mas o que aconteceu hoje foi extraordinário.

Quando cheguei já havia umas 15-20 pessoas na minha frente. Nenhum ônibus à vista. Claramente o motorista das 5:25 não apareceu e o de 5:35 estava atrasado. Ele só parou ali 5:38, o que foi TENSO, pois três minutos de diferença, no Alvorada, já degringola toda a situação. A fila já dobrava atrás de mim e uma segunda fila para o próximo ônibus se formava quando a velhinha chegou. E lá foi ela para o lado do primeiro-da-fila.

Como o motorista estava atrasado, a tensão era grande. Coisas que vemos todo santo dia hoje estavam deixando o povo nervoso. O despachante veio correndo, entrou no ônibus, ficaram conversando, patati patatá. E a velhinha querendo interromper. Começou simpática, com aquela ladainha de todo santo dia (“abre a porta lá atrás pra mim?”). Após ser ignorada por longos segundos, ela começou a ficar mais, ahm, “enfática”: falando alto, repetiu o pedido de forma ríspida, duas ou três vezes, já praticamente exigindo. O despachante desceu, falou para ela ir para a porta de trás, mas o motorista não abriu.

A multidão subia e já começava a se acomodar, a fila avançava e ela na porta, já aos berros, esperneando, cada vez mais e mais e mais! A cada cinco pessoas, ela berrava: “MANDA O MOTORISTA ABRIR ESSA PORTA, MERDA!!!! CARALHO!!! PORRA!!!!” E ficou assim por um bom tempo! Eu já estava bem perto de subir quando vislumbrei uma cena maravilhosa. Meus companheiros de ônibus estavam todos fazendo “tsc tsc” com a cabeça, rindo à beça, ou até mesmo gargalhando.

Todos eles, sem exceção, sabiam quem ela era e estavam em puro êxtase. Fomos todos vingados. A felicidade transbordava, dentro e fora do ônibus.

Quando subi o primeiro degrau, finalmente a porta de trás foi aberta (relembrando: eu estava atrás de umas 15-20 pessoas). Ouvi o motorista dizendo “a senhora respeite o meu trabalho”. Depois notei a balbúrdia no interior. Vários homens também rindo e aconselhando: “olha que nunca mais ele vai deixar a senhora entrar assim, hein!” “calma, senhora!” “Credo!” (ela estava xingando muito, sem parar, bem alto, inúmeros palavrões, era horrível…)

Eu olhava para as pessoas ao redor e todas elas tinham um sorriso maravilhoso no rosto. Catarse coletiva fascinante.

Eu gostaria de registrar aqui uma coisa importante para a “moral da história”: a senhorinha mirradinha conseguiu sentar no mesmíssimo lugar de sempre, mesmo tendo entrado bem depois dos outros. Então perceba que a questão não é pegar um bom lugar. Se ela fosse a 21ª pessoa da fila, iria sentar ali mesmo, sem treta e sem presepada.

O negócio é ter a vantagem. É entrar primeiro. Passar a perna nos outros. Ter tratamento superior em relação aos demais. Dava para sentir a ânsia dela. Sua ira aumentava com cada pessoa que ela via rodar a roleta. Cada um que sentava a fazia soltar um palavrão mais cabeludo que o anterior. Muito feio, muito feio mesmo.

Sentei na cadeira à frente dela. Foi possível ouvi-la estrebuchando baixinho praticamente o caminho todo. Desceu no seu ponto irritadíssima, dava para sentir o ódio naquele coraçãozinho mirradinho.

Continuo tendo aquela peninha de sempre (pobrecita…!), mas não tenho vergonha de dizer que compartilho da sensação de felicidade coletiva que tomou conta daquele pedaço do Alvorada hoje cedo.

Justiça foi feita para dezenas de passageiros que diariamente assistem a esta senhora impor suas vontades goela abaixo de todos por mero capricho.

Que dia memorável.

Sugestão para a Editora Abril economizar dinheiro: acabe com a VEJA RIO!

Todos nós sabemos que a crise está horrorosa. Todo mundo passando perrengue, e editoras não são diferentes. Aí, um belo dia, após passar um trânsito dos infernos lendo a VEJA RIO no ônibus, me veio um estalo: por que essa revista existe?

A Abril vem cortando dezenas de revistas do seu catálogo. Por que não retirar mais uma?

Acompanhe meu raciocínio:

  • Para que serve uma revista com dicas e programação semanal que chega para você no DOMINGO e vem falando de coisas que “acontecerão” (?) na VÉSPERA? Tá, para alguns privilegiados a revista chega no sábado, mas se não é assim PRA TODO MUNDO, tem gente recebendo conteúdo inútil.
  • Para que serve uma revista que traz a sinopse dos filmes em cartaz, mas não vem a lista do circuito? Sendo que quando eles publicavam esse “serviço” era totalmente inútil: o circuito muda na QUINTA…
  • O circuito de teatro e de museus publicado é incompleto – o de museus me irrita particularmente, pois é feito de forma caótica: ora por mostra, ora por museu. DECIDAM-SE!
  • O assunto de determinadas colunas/notinhas é sempre o mesmo, semana a semana, e literalmente não serve para nada: história do Rio, pessoas antigas do Rio, fotos velhas do Rio, exposições sobre o Rio, produtos inspirados no Rio. Bocejo!
  • O conteúdo jornalístico é pífio demais, dá até pena comentar.
  • As raras entrevistas são patéticas: a última que li foi do Lionel Richie. A repórter só perguntava coisas idiotas, como “você vai fazer dueto com algum artista brasileiro?” “você vai participar de alguma caridade no Rio?” (oi???).
  • Não sei o que acontece com a seção de cartas, mas ela é um absurdo de preguiça de quem edita. Catam comentários no Facebook, é isso? Jesus! Não recebem mais carta como antigamente? Então tirem a seção, oras! Sério, está muito muito ruim.
  • O Manoel Carlos enquanto colunista é um despautério. Falta um editor ali para orientá-lo sobre coisas como início, meio e fim.
  • E o que falar da seção de restaurantes, que trata única e exclusivamente do quadrilátero Ipanema-Leblon? Tédio!
  • Outra coisa preocupante é a diminuição drástica dos anunciantes. A maioria das propagandas é da própria Abril.

Gente, sério: o papel está caro, a gráfica também. O custo de manter essa redação também deve ser alto.

Transformem a Vejinha apenas em site e app. Ninguém se importa…! A revista está muito fraquinha.

Aliás, constantemente aparecem em suas páginas de serviços selinhos explicativos do estilo “veja tudo muito mais completo no nosso site!” Oras… se é assim, pra quê revista?

A Editora Abril faria melhor se ampliasse a redação da “Vejona” e o seu conteúdo (não precisa ser muito, tipo 12-16 páginas a mais de matérias? Talvez 20?). O preço poderia ser mantido nos R$ 14,00.

Mesmo ampliando a VEJA, tenho certeza de que a economia seria expressiva. Pense nisso, família Civita!

As dores da minha profissão

Eu amo o que faço, acho que nasci pra isso, é a paixão da minha vida ser paga para ler! É um privilégio. Só que…

Deixe-me explicar uma coisa aqui sobre a profissão de “ler” quando se trata de um material caótico.

É DESGASTANTE. Tenho que ler cada frase 4, 5 vezes, para tentar reescrever e entender o que diabos a pessoa quis dizer. Tenho que ir e voltar inúmeras vezes, até os parágrafos ficarem coerentes e coesos. Os tópicos precisam fazer sentido. O conteúdo do capítulo tem que condizer com o seu título.

É CANSATIVO. A produtividade cai vertiginosamente. O trabalho não acaba nunca, não consigo terminar rápido. Às vezes preciso ir até o fim para entender qual é o “ponto” do autor, o que ele se propõe com o material. Ou então eu fico nessa de “será que vai melhorar?”, e tenho que ler tudo, não tem jeito.

É ESTRESSANTE. Minha assistente fica impressionada porque quando pego um livro ruim eu fico sem fome até acabar a tormenta. Reclamo da música no rádio. Passo o dia grunhindo. Bufo pro namorado de noite. Sofro, sofro, sofro.

É REVOLTANTE. Eu acabo ficando loucamente inconformada com o estado das coisas nesse país. Uma pessoa de alto nível, com mestrado e o escambau, simplesmente não consegue redigir um texto. O problema é dele? Certamente, mas vem cá: que educação é essa que permite que alguém seja aprovado em cursos de graduação e pós redigindo de forma TOTALMENTE ininteligível?? É inaceitável. Se você não tem boa redação, tem que ficar no segundo grau tentando até conseguir escrever uma folha de texto que faça o mínimo sentido e não contenha erros de português.

Nos últimos 4 meses eu li (até o fim!) pelo menos 3 manuscritos que tive que devolver. Porém, quem devolve o meu tempo? Quem devolve meus neurônios perdidos?  Quem vai pagar o meu adicional de insalubridade?

Daí o meu apelo: antes de entregar qualquer coisa escrita para qualquer pessoa (seja um folheto, um panfletinho revolt, um cardápio, um trabalho de colégio, um documento, um requerimento, uma petição, um post, *um livro*…!), PELAMORDEDEUS, RELEIA.

Se você simplesmente ler o que escreveu, de preferência em VOZ ALTA, o seu futuro leitor agradecerá eternamente!

Dez coisas rápidas sobre o Kobo Touch

Com 15 dias de uso do meu lindo Kobo Touch, já posso chegar a algumas conclusões:

  • é ridiculamente fácil comprar e-book usando o bichinho. Cuidado com a carteira!
  • A capa do livro sendo lido aparecendo como descanso de tela é um charme, oun! <3
  • a leitura é *extremamente* confortável. Não tem nada disso de “aaai, o cheiro do papel, o suporte, nhé nhé nhé”. E ouso dizer que é melhor em casos de livros imensos como a biografia do Bill Clinton (900 pp deitada ou recostada na cama? Impossível! só como e-book!)
  • A desvantagem do ‘ir-e-voltar’ no texto é gritante em relação ao papel. Muito chato acessar menu, folhear sumário, achar o assunto e clicar. Coisas que você faz em meio segundo num livro impresso. Daí a minha dificuldade de acreditar que alguém consiga estudar com livros em formato digital. A ver…!
  • com o “% lido” sempre aparecendo ali na sua cara, e as estatísticas como velocidade e tempo estimado em horas para terminar, rola AQUELA PRESSÃO.
  • o fato de ser um e-reader, e não um tablet cheio de penduricalhos, tem tudo a ver comigo. Ajuda a focar na leitura e não tem distrações
  • ler vários livros ao mesmo tempo funciona – e é tentador! Dá pra organizar váaarias bibliotecas, aiaiai! 
  • dá pra comprar e-books em outros lugares e colocar lá, sem problemas. Já testei com o iba.
  • como gerente e produtora editorial, de primeira me deu certa raivinha ver que posso mexer livremente em fonte, espaçamento e margem – coisas que ENLOUQUECEM o dia a dia da profissão. Mas por outro lado é libertador, hein!
  • por favor, ninguém surte achando que a carreira vai sumir. Já peguei alguns livros com erros bobos de indexação – vai precisar sim, sempre, de assistente de produção pra dar uma checadinha básica e neurótica nesses sumários e índices… ;)